RED Trio: RED Trio

João Martins, Jazz.pt (2010/10/10)

Rodrigo Pinheiro, Hernâni Faustino e Gabriel Ferrandini são personagens bem presentes e muito bem vindas na cena musical portuguesa improvisada e experimental há vários anos mas, pela sua natureza afável, generosa e discreta e talvez pelos instrumentos que tocam, não foram nunca alvo da atenção que merecem até à criação deste RED Trio. Aqui, neste encontro que se tem afirmado de forma fulgurante desde a sua criação, afirma-se não só o talento e virtuosismo de cada um deles, mas a sua capacidade colaborativa, assente em ouvidos muito atentos e numa gestão criteriosa do espaço a ocupar e do tipo de estímulo necessário para fazer evoluir as situações musicais e na aposta em estratégias criativas ganhadoras. O grupo recorre frequentemente à afirmação dum motivo a solo que depois se desdobra na sua exploração profunda e profícua pelo trio nas várias combinações possíveis. E a configuração hiper-convencional de piano, contrabaixo e bateria não limita em nada a capacidade exploratória e/ou expressiva do grupo; não só porque as “jaulas” tradicionais dos instrumentos da secção rítmica estão completamente postos de lado neste trio, mas também porque o domínio de diversas técnicas de expansão de cada instrumento permitem uma grande diversidade de situações. Igualmente notável é a confiança com que o RED Trio se dedica à exploração consciente dos motivos que vão sendo apresentados, gerindo cuidadosamente o perigoso equilíbrio entre a exaustão dos recursos, o interesse e a consequência musical do conjunto. Sem saltar de motivo em motivo e sem fugir das ideias antes duma cuidadosa observação, o RED Trio navega de forma precisa, cuidadosa e rigorosamente sincronizada no plano das ideias, por territórios da improvisação onde muitos músicos temem já não encontrar novas rotas. E a viagem que nos oferecem demonstra bem o enorme potencial que continua a existir no encontro livre entre músicos talentosos e atentos.

Este primeiro registo confirma e corporiza as óptimas impressões que o RED Trio tem dado em vários palcos pelo país.

Afirmam-se 3 grandes músicos: Rodrigo Pinheiro como um dos mais interessantes e criativos pianistas da nossa cena experimental, pelo que faz tanto no teclado como no corpo do piano, mas principalmente pelo extraordinário ouvido e sentido musical e pelo extenso vocabulário; Hernâni Faustino, um contrabaixista completo, pela diversidade expressiva e tímbrica, pela autenticidade e pela velocidade de reacção; Gabriel Ferrandini, um percussionista de excepção, pelo vastíssimo vocabulário, pelo timing, pela gestão rigorosa do espaço e da dinâmica. O conjunto que é o trio funciona com uma coesão e cumplicidade fora de série, reagindo tão depressa que parecem antecipar, por vezes, as intervenções de cada um e dominam os instrumentos de tal forma que chegam por vezes, como em “Quick Sand”, a apresentar-se, instrumentalmente, como uma formação híbrida.

Assim como o RED Trio entrou, directamente, para o conjunto de agrupamentos que já deviam existir há mais tempo, também este registo homónimo, entra directamente para uma discografia do essencial da música experimental / improvisada portuguesa. Naturalmente.

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